(continuação)
Preciso passar o tempo até a hora do baile. Paro na sinuca, fico observando os outros jogarem, é o mata-mata o mais popular jogo de bilhar. Mentalizo e acompanho as jogadas. Os sinuqueiros eram fracos, mas apostavam de dez em dez, banca muito alta pra mim arriscar, bebo uma Skol e fico manjando os estilos. O que joga melhor é do tipo de suicida, mirava e porrava, numa dessas ignorâncias eu ri, me escapou, o suicida porrador então se vira pra mim:
- Faz melhor?
- Me desculpa, mas faço.
- Pago pra ver.
O suicida toma o taco de seu adversário e me entrega, os outros que estão com ele arrumam as bolas, vermelhas e amarelas, meu desafiante ajeita a bola branca e:
- Eu começo.
Não sou nenhum ás, mas não sou inocente. O pulo do gato é o posicionamento do taco, a traseira não pode estar muda levantada, porque a tacada pressiona a bola branca para baixo, afunda o pano e desvia a mira. Também não pode baixar demais a parte de trás do taco, para não bater na tabela no momento da execução da tacada desviando o taco da posição correta. Às vezes essa batida é muito sutil e pode nem ser percebida, mas qualquer toque, é o suficiente para errar a jogada. O melhor maneira é deixar o taco o mais próximo possível da posição horizontal. Questão delicada, merecedora de um estudo atento, à medida em que tenta colocar o taco o máximo possível na horizontal, não se deve ultrapassar os limites que proporcionam a sua livre movimentação. É o fio da navalha.
Beleza, vou jogar só uma, perder dez pratas e saltar fora. Mas meu opositor não acerta o buraco de primeira e mais com o porradão deixa as minhas bolas no jeito. Coloquei as quatro bolas vermelhas nas caçapas sem dificuldade, de primeira, sem firulas, profissional, uma cagada de sorte. Ele quer uma revanche.
- Isso é sorte de principiante. Vamos jogar mais uma pra ver se você é bom mesmo.
Tento me desvencilhar.
- Marquei com um parceiro no baile. Tenho de ir.
- Tá amarelando!
Não obtive sucesso, detesto quando me desafiam, tranqüilo, ele quer perder de novo. Ganhei a primeira, agora eu começo. Passo o giz no taco me fazendo de muito entendido, marra de quem vence, miro a branca e bato devagar, encostando nas vermelhas e deixando as coisas difíceis pro fanfarrão, que tenta todos os ângulos, e foi com o taco em pé que ele tentou sair da sinuca. Tenta essa tentativa empurra minha primeira bola para caçapa e nem acertou as dele, segurei o riso, o cabra chapadão de bagulho ri de qualquer coisa, melhor não provocar, não conhecia ninguém ali na sinuca, exceto o proprietário, que não vai comprar meu barulho. Minha vez, matei mais uma e deixei a bola branca presa de novo, o suicida se desespera, leva a mão à cabeça, diz que eu jogo sujo, me defendendo, papo de desesperado que está vendo o jogo se definindo. Uma periguete* passa pela mesa, analisa o jogo e manda na lata do suicida:
- Ta na merda!
- Vai se fuder! Não te perguntei nada, vai procurar uma rola.
A periguete é bem jeitosa, bocão de boqueteira, com uma melancia atochada numa mini-saia que devia ter uns cinco dedos de tecido. As peitcholas dignas de uma espanhola com grand finale estavam cobertas por quatro dedos de malha que deixava a barriguinha no shape exposta revelando o umbigo com um piercing que era uma corrente com pingente de borboleta. Tem outro piercing, mais discreto, no nariz uma pedrinha brilhante. O cabelo muito vermelho, alisado com ferro de passar roupa. Eu pego! Ela compra Brahma, latinha, abre e passa rebolando, gostosa, passa me encarando e:
- To torcendo por você.
Meu adversário cuspindo fogo:
- Passa fora piranha, pára de me secar.
Parto pro ataque, mato o jogo, pego minha grana, pago as cervejas que consumi e tiro duas do montante que o suicida porrador bebeu, para não passar recibo de mal vencedor, faturei vinte contos, está de bom tamanho.
Saio da sinuca, aperto o passo e reencontro a periguete numa das bocas da beira do rio: Amendoeira, Treze, sei lá nunca guardo os nomes das localidades, me guio pelo cheiro de bagulho, se o aroma passa no teste é lá que compro. Mas ela estava comprando pó, se pancando, me vê e toda sorridente se apresenta: Layla, o “y” eu que coloquei, porque ela não soletrou para mim seu nome, prefiro assim com ”y”, tudo bem ela nem deve se chamar assim e muito menos sabe que por causa do Eric Clapton que ao acompanhar de perto o sofrimento da esposa de seu amigo George Harrison, Pattie Boyd, deixada de lado pelo interesse do marido pela cultura hindu, o Deus da guitarra acabou se apaixonando. E o sofrimento por amar a mulher de seu melhor amigo o inspirou a compor: “Layla".
“… Layla. You've got me on my knees, Layla. I'm begging darling please, Layla. Darling, won't you ease my worried mind?...”
(continua)
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