(continuação)
No feirão da Concórdia as filas de viciados dobram a esquina...
“É dia de feira, quarta-feira, sexta feira, não importa a feira. É dia de feira e quem quiser pode chegar”. (O Rappa)
Ou então:
Nêga Jurema veio descendo a ladeira trazendo na sua sacola um saco de Maria Tonteira. E a molecada avisou a rua inteira: "vem correndo que a feira já está pra começar" (Raimundos)
As filas dobram as esquinas por dois fatores: muitos receberam o salário hoje e a qualidade se sente no ar, esse cheiro atrai usuário igual no desenho animado, quando o pica-pau era seduzido pela fragrância exalada de uma torta recém tirada do forno e seguia flutuando até o alvo. Um aroma maravilhoso invade minhas narinas, é fumo de qualidade. Escolho as mais servidas na banca de vinte e cinco reais, mordomias de freguês assíduo. De posse da minha cota de bagulho, quatro mutucas estufadas com barrinhas prensadas que consigo esticar o mês todo, sem esbanjar, mas sem miséria, uns bons baseados para de manhã quando acordo, uma luz para trabalhar alivia a pressão, outro no final do trabalho e mais um pra dormir. Essa é a rotina semanal, no fim da semana também faço uso entre as refeições.
Resolvo queimar antes de partir. A maconha está excelente, é de qualidade boldinho, geralmente o boldo prensado é paraguaio, o único produto importado do Paraguai que não é falsificado, a planta bahiana é diferente: é solta, com uns fiapos vermelhos, essa não costuma chegar ao Rio de Janeiro, só chega em escala pessoal, nunca no atacado pra vender no varejo, o sabor inconfundível, saboroso. Tem também a erva do Rio São Francisco, Polígono da Maconha, Pernambuco, costuma ser fraca, conhecida como palha, os cultivadores plantam em ilhas do rio e colhem antes do tempo, armazenam de qualquer maneira, por causa da Polícia Federal que está sufocando aquela área. No Paraguai, a lei é mais flexível e podem deixar florescer o topo da arvore de Cannabis Sativa alcançando maturidade e qualidade.
“Diz que tem o Cabrobó lá em Recife, tem. Diz que tem o Home Grow no Canadá e tem. Diz que tem o Croonic na Califórnia, tem. Diz que tem o Kind Bud em Nova York, tem também. Diz que tem a La Mota Mexicana, tem. Diz que tem o Manga Rosa na Bahia, tem. Diz que tem o Skank lá na Inglaterra, tem. Diz que tem todos lá em Amsterdã, ah, isso tem!” (Marcelo D2)
Escondo quase tudo num entoque no parachoque traseiro, desmonto a forração, tirando um grampo, camuflo na lataria e coloco a forração e o grampo no lugar. Sento no capô, desfaço um pedaço da erva que separei para consumo imediato, aperto um baseado estiloso na Colomy, seda popular encontrada em qualquer birosca, acendo, carbura de primeira, puxo e prendo na pressão, seis segundos depois de aspirar a fumaça o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) chega aos pulmões e levado pela circulação, chega ao cérebro e uma excitação de neurônios envia sinais aos dopaminérgicos do sistema límbico, suscitando a liberação de mais dopamina causando sensação de prazer e euforia. Viajei, me achou sabido? Besteira! Com a internet qualquer um vira especialista, outro dia tive curiosidade e pesquisei numa lan-house o que a planta pode causar ao meu corpo, mesmo sabedor do mal que causo ao meu organismo, resolvi arriscar, o “custo / beneficio” vale a pena.
(continua)
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