(continuação)
Parto pro Jacaré e vou comprar meu estoque de maconha mensal. Como tento me manter dentro da lei, reduzo meus riscos com a polícia a uma vez por mês. Abro a janela para ficar atento aos sons, se estourarem os fogos doze por um é porque a favela está ocupada pela polícia, nesse caso é melhor escolher outra comunidade para se abastecer de cannabis, por perto tem: Manguinhos, Rato, Sampaio, Mangueira, Tuiuti e Matriz. Entro pelo Fundão, estaciono perto da segunda passarela sobre o Rio Jacaré, debaixo de uma árvore; tenho paranóia de helicóptero e de binóculos, um menor de idade, uns dez anos no maximo, me pede cinqüenta centavos, não dou, é para inteirar no crack, maldita droga, até pouco tempo atrás o Comando Vermelho proibia a entrada desse veneno no Rio de Janeiro, outros tempos, tempos românticos, tempos de comando assistencialista, de comando morador, hoje é só comercio, só lucro, a nova geração matou seus ídolos vide: o Escadinha, o Gordo; aí sobra para sociedade, que está assustada com a violência desse comando jovem e drogado, sobra para os trombadinhas, que gíria antiga, estou ficando velho, tenho de queimar um baseado, pra relaxar, para me sentir bem-humorado, aturar essas dificuldades todas de trabalho escravo.
Sempre achei demagogia culpar o viciado pela violência, é papo de quem está transferindo a culpa, mas depois do filme Tropa de Elite virou moda, o dinheiro que se paga na boca de fumo vira munição que mata polícia e inocentes.
"Tem dia que a criança chora, mas a mãe não escuta. E você nada pra fora, mas a vala te puxa. Hoje pode ser meu dia, pode até ser o seu. A diferença é que eu vou embora, mas eu levo o que é meu. Tropa de Elite osso duro de roer. Pega um, pega geral, também vai pegar você"...(Tihuana)
Aqui está todo mundo trabalhando, não tem mercado para quem não tem estudo e nessas localidades o estudo não chega nem perto. Se um irmão exibe seu sucesso, se vestindo bem, se alimentando com o melhor, comendo as mais gatas, é aquele papo, cada um tem o ídolo que merece. Se um estado não faz por onde, alguém tem que fazer, não pode ficar esperando cair do céu, resignado achando que Deus vai ajudar, se o “homem” é brasileiro nunca visitou a favela, aqui o buraco é mais embaixo.
(continua)
Nenhum comentário:
Postar um comentário