terça-feira, 1 de junho de 2010

DIA DE PAGAMENTO (parte 07)

(continuação)

Luís vascaíno continua falando do Vasco e eu aqui viajando no último gole de Skol, puxo o dinheiro do bolso e pago a conta, só de provocação me despeço com saudações rubro-negras:

- Valeu vice.

Irritado responde:

- Vai se fuder! Esse ano não tem Obina* certo.

Recalque é chato. Chego em frente à fábrica, penso se devo ou não voltar ao batente, decido voltar, bato o cartão e vou enrolar sem fazer nada até dar dezoito horas, dessa forma vou receber pra tomar banho, não volto mais hoje pro almoxarifado, a porra da peça da engrenagem que faz a merda desse planeta girar, vai ficar para amanhã, se quiser. Dou um pulo na sala de serviços gerais, sala é elogio, não passa de um depósito fedido pro material de limpeza, lâmpadas e outras itens para pequenos consertos que se aglomeram em estantes de ferro, as paredes livres têm pôsteres amarelados do Botafogo. Pacheco que é chefe da limpeza está espremendo uns limões no fundo do copo de geléia, joga em cima três saches de açúcar roubado da cantina e derrama álcool hidratado, esses de limpeza, sobre a massa de limão e açúcar, mistura, bebe e deixa o mel para mim, completa com um choro de álcool, misturo com o dedo e bebo, desce queimando, sinto o estrago no fundo do estômago, mas alcança seu objetivo que é chapar. Trocamos uma idéia superficial sobre o pouco que nos pagam, se eles fingem que pagam, a gente finge que trabalha.

Vou para o vestiário ainda falta meia hora pro fim do expediente, é proibido tomar banho antes de bater o cartão, mas dia de pagamento é uma bagunça, com esse papo de ter que ir receber no banco, os superiores ficam perdidos e eu aproveito para matar o trabalho que me mata. Pego um jornal que estava no chão, é de ontem, mas tá bom é só pra distrair enquanto dou uma barrigada, o limão não me caiu bem. Esses jornais de cinqüenta centavos no meio da edição têm sempre uma gostosa querendo ser famosa exibindo seus predicados. Ali no reservado me concentrei na popinha da vagaba aspirante, que sempre vem acompanhado de um textinho clichê:

“Moradora de Guadalupe a funkeira Cíntia rebola até o chão e se for a mais votada volta no sábado mostrando um pouco mais do seu talento”

Que talento uma bundinha digna de uma homenagem, deixa comigo, num instante bate o vazio, agora não tem o risco de ser precoce, mais tarde a noite promete.

Tomo banho de água fria, faço a barba com gilete cega, ferindo o rosto e deixando sobrar alguns pêlos rebeldes, passo desodorante e me visto nada de mais: jeans, camiseta preta e all-star vermelho, mesmo assim as funcionárias se perdem, o mole é descarado. Termino de me vestir e desço do vestiário, vou passando por elas que acabaram de bater o cartão e ainda vão se arrumar, eu limpo e cheiroso passo todo empinado e metido, escuto uma delas, a Vanessa telefonista, uma Loura balzaquiana, casada por duas vezes, atualmente separada está na caça de marido:

- O Ricardo dá um caldo, pena que tem o rei na barriga.

Não adianta dar moral pra essas vampiras, se você der confiança, querem namorar, aos poucos vão deixando coisas na sua casa: uma muda de roupas, uma escova de dente, pendura uma plantinha no teto, sonham com casamento e eu estou muito feliz na minha vida de solteiro convicto, matrimônio nunca mais.

“... Eu já tive lá e sei, é sempre aquela vidinha. Casado leva a vida de rei, mas tem que obedecer a rainha. Solteiro dorme com fome, mas dorme a hora que quiser, na cama que escolher cada noite com uma mulher...” (Velhas Virgens)



Bato o cartão, me despeço de alguns, no caminho para o estacionamento próximo a saída recuso o convite para beber no Luís, entro no meu carro, um Chevette hatch 1.4, 1980, bicolor, prata e grafite, com bagageiro, todo original, comprei de uma viúva que queria se desfazer o mais rápido possível do pesadelo herdado do marido, o carro dividiu com ela a atenção do falecido durante anos, só fiz colocar um som melhor que ainda hoje pago prestação da Casa e Vídeo.

(continua)

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