(continuação)
Falando em humilhação, o segurança da portaria me revista com o detector de metais, percorre aquele aparelho que mais parece uma palmatória por todo o meu corpo. Quando o baitola* passa a máquina pela minha virilha, começa a imitar o som do alarme:
- Bip, bip, bip é de ferro?
Não me contive, nem tentei.
- Vai tomar no cu! Enfia essa merda no rabo e me deixa em paz!
- Tá nervosinha, santa? Enfia o dedo, roda e cheira.
Não dou mais atenção para ele, atravesso a rua e vou andando pela Lino Teixeira. Até alcançar o Banco, são uns cinco minutos, subo as escadas e como sempre, fico preso na porta giratória. Puro preconceito, estou usando o macacão do uniforme, encardido, puído e sujo de graxa, vê se alguém assalta Banco todo esfarrapado. E as câmeras, se as câmeras funcionam, o assaltante quer ficar bem no vídeo, vai que passa no Jornal Nacional, o William Bonner vai anunciar:
- Maltrapilho tenta assaltar Banco e fica preso na porta giratória.
Humilhação. Ninguém quer ser humilhado em rede nacional, ninguém quer ser humilhado nem na sua rua, nem no seu bairro. Imagina no país todo. Imagine um lavrador no Acre relaxando de um dia de labuta em frente à televisão enquanto espera a novela das oito, e me vê na telinha encurralado, impossibilitado de andar, todo imundo e cercado pela polícia. O que ele deve comentar:
- O coitado deve de tá com fome, olha os trapos que ele veste.
Continuo preso, nem pra frente, nem pra trás. O que me resta é aguardar enquanto vem outro fantoche do sistema. Esse agora é do tipo que aciona a trava da porta com um controle remoto. Nunca acreditei que tivesse qualquer detector de ladrão nessas merdas de portas. É puro achismo do segurança patrimonial, que se aproxima:
- Esvazie seus bolsos e coloque tudo na abertura lateral.
Já conheço o procedimento, mas esperei ele falar só de provocação. Fico encarando esse idiota preconceituoso, olho no olho e de cara fechada vou colocando vagarosamente na caixa de acrílico item por item que carrego comigo: um celular pai de santo, pré-pago que só recebe ligação, modelo de noventa e nove reais que paguei em dez vezes, um chaveiro com a chave do pardieiro onde moro, a chave que abre o meu armário na firma e a chave da gaiola do almoxarifado que me aprisiona no horário comercial, trinta e cinco centavos e o cheque. Na fila, uns pobres coitados me encaram como se eu fosse um marginal, condenado e culpado pelo excelentíssimo juiz da segurança patrimonial que confere meus pertences, me manda dar um passo pra trás e tornar a tentar cruzar a maldita porta giratória. A porta destrava, rolou um recurso e acabei considerado inocente:
- Pode entrar, cidadão.
Até parece, isso é medo de processo, tem gente que não perdoa, geralmente negros politizados. Agora tudo é racismo, uma patrulha da porra. Pego os meus trecos e vou para o rabo da fila. Tem uma lei que limita em vinte minutos de espera na fila do Banco, mas do jeito que segue vou mofar uma meia hora no mínimo. Devia ter trazido um livro, uma revista. Daqui a pouco encerra o expediente bancário e não pára de chegar velhinhos que entram na frente de quem está esperando há tempos, outra lei, uma das que funcionam, maiores de sessenta e cinco anos têm direito de furar fila. Injusto, o cara está aposentado, com o dia todo pela frente, e vem aqui atravancar o progresso. Enquanto eu não retorno pro trabalho, o mundo fica parado, esperando por mim. Tenho sempre que liberar uma peça de reposição da engrenagem superior da injetora de alumínio, o mundo não pode esperar. Os pratos e talheres não confeccionados impedem o movimento de rotação da Terra.
Finalmente o caixa:
- O próximo.
Sou eu. Caminho em direção ao guichê, nem rápido, nem lento, desfilo minha integridade, devo não nego, pago quando puder, caminhos errados nunca mais.
"The best things in life are free. But you can keep them for the birds and bees. Now give me money. That's what I want. That's what I want, yeah. That's what I want"... (The Beatles)
Ou então:
"Money, get away. Get a good job with more pay and you're okay. Money, it's a gas. Grab that cash with both hands and make a stash. New car, caviar, four star daydream, Think I'll buy me a football team.
Peço pro caixa que me pague com dinheiro trocado:
- Boa tarde. Se puder me dar trocado é bom.
- Sinto muito, só tem nota de cinqüenta.
- Lógico, o dinheiro circula e todos têm troco de sobra por aí, inclusive vou usar essa nota aqui.
Destaco uma nota do montante:
- Pra pagar a sua mãe hoje, lá na Vila Mimosa.
- Pega esse dinheiro e cai fora, antes que eu chame os seguranças.
Nessas horas é que tenho vontade de voltar a ser do bicho, tem muita gente recebendo hora extra no mundo.
(continua)
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