(continuação)
Sigo pelo corredor dos escritórios, lugar onde freqüento pouco, geralmente no dia de pagamento ou quando não é algum superior me chamando a atenção, esporro, ora por atraso, ora por ineficiência. Sei que meus dias aqui estão contados e em breve estarei na fila do desemprego de novo, mas mesmo assim não me motivo em fazer diferente, eles contrataram horas do meu dia, mas:
“... se eles querem meu sangue, verão o meu sangue só no fim, e se eles querem meu corpo, só se eu estiver morto, só assim...” (Jimmy Cliff)
Então, próximo à portaria onde o corredor dos escritórios se funde ao acesso da fábrica, grudado na parede está o insensível relógio de ponto. Me aproximo do frio e inabalável relógio, bato o cartão. É, me pagam em cheque, tenho de ir ao Banco na hora do expediente para descontar o cheque-salário e para completar a sacanagem, ainda me descontam o tempo que não trabalho indo ao Banco. Se pagassem em dinheiro simplificava o processo. Porcos, sempre arrumam um jeito de nos enrabar. Um estupro consentido, ninguém me obriga a passar por isso, mas estou me esforçando para andar conforme a lei, tenho de me enquadrar no sistema, chega de prisões, de humilhações.
(continua)
Nenhum comentário:
Postar um comentário