segunda-feira, 17 de maio de 2010

DIA DE PAGAMENTO (parte 01)

Todo dia de pagamento é sempre igual, o verme do departamento pessoal, puxa-saco de patrão enseba até o último minuto para entregar o cheque com o salário. O Banco fecha às dezesseis horas e faltam apenas quinze minutos para que isso aconteça. Finalmente a boca de ferro* brada:
- Senhor Ricardo Ferrão, auxiliar do almoxarifado, compareça ao DP.
Esse “DP” é brabo, parece coisa de polícia, depois de algumas experiências traumáticas, quero é distância da vigésima primeira “DP” em Bonsucesso, décima sexta “DP” na Barra da Tijuca, entre tantas outras que já tive passagens pelos mais diversos motivos, mas como estou tentando viver dentro da lei, não me causa nenhum efeito. Minha perna treme, mas não tem nada a ver, deve ser ressaca, tenho de parar de beber dia de semana, prejudica meu trabalho de enorme responsabilidade; o mundo pode até parar se eu colocar uma ferramenta no escaninho errado, imagina a produção interrompida porque resolvi encher a cara de vodka falsificada, nem durmo de tanta preocupação. Até parece, quero que se foda!
Diante da porta de vidro que tem seu nome pintado: Sr. Roberto Flores, chefe do Departamento de Pessoal, vejo ele sentado com sua empáfia habitual. Atrás de uma mesa milimetricamente arrumada, existem dois armários de arquivos com pastas suspensas. No canto esquerdo de quem entra, uma mesinha com uma cafeteira expresso italiana estilo retrô, muito chique, e um vidro com biscoitos cream cracker. Na parede, um quadro do fundador da empresa, uma fotografia em preto e branco encardida pelo tempo. Numa alucinação, que deve ser fruto de um flashback do ácido lisérgico, que ingeri em escala industrial dos vinte aos vinte e oito anos, enxergo um balão desses de histórias em quadrinhos que se desprende da cabeça de Seu Roberto com os seguintes dizeres:
- Não me misturo com subalternos, lido com o dinheiro do patrão. É trabalho de responsabilidade.
Não estou nem aí, me dá o que é meu e bola pra frente, hoje é dia! Todo dia é dia, mas hoje mais do que os outros dias, porque levo comigo a confiança que só um dinheiro ganho honestamente causa ao indivíduo, pois não tem a tensão de uma roda de sueca ou os cálculos precisos da mesa de sinuca, nem a decepção no páreo de um jóquei, onde se deposita a fé nas patas do cavalo. Acho charmoso jogar nos cavalos, me passa um clima meio Bukowski, além disso, tem apostas de um real, e se o palpite for certeiro, corre-se o risco de levantar uma bolada no fim de semana, únicos dias que me restam para essas estripulias, já que sou um trabalhador assalariado com carteira assinada, trabalho esse que está durando. Não costumo parar muito tempo nos empregos, culpa minha eu assumo, sou preguiçoso e lento com o que não me interessa e no caso não me interessa em nada deixar o patrão mais rico. Então, pego minha merreca e saio fora sem trocar idéia com esse prego. Seu Roberto tem medo de encarar os funcionários, deve ser pânico de perceber o quanto somos iguais e manipulados por quem tem a grana. Todos marionetes do dinheiro, numa ciranda sem fim... (continua)

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