(continuação)
...Que merreca, dias acordando cedo, batendo cartão, recebendo ordens, contagem e recontagem das peças que nunca conferem, sobe e desce as escadas das prateleiras, um ritmo frenético. Pra no fim, entregar metade do salário no aluguel; o senhorio já deve estar na porta do prédio me esperando, metade da metade vai pro goró e o resto fica na boca de fumo, ainda bem que tem vale-refeição, se não nem comia.
No caminho de volta pro trabalho, paro no botequim do Luís Vascaíno, Luís é português, o caçula de uma linhagem tradicional de proprietários de pés-sujos, metido em torcida de fanáticos, aqueles que vão pro estádio brigar. Por educação pergunto:
- E o Vasquinho?
E Luís começa com aquele discurso bitolado de eterno vice, emenda no Eurico, por que fui perguntar? Peço um conhaque e uma Skol, dia de pagamento é assim, na Skol e no cash; no meio do mês é Itaipava e pendurada na conta. Um gole do conhaque pro santo, minha vez e bebo de uma talagada só. Conhaque me deixa todo ressecado por dentro e com um puta tesão, só mesmo uma cerveja estupidamente gelada para rebater e refrescar, no caso dessa cerveja, no rótulo tem uma setinha redonda que fica azul assim que alcança a temperatura ideal; quanto mais azul, mais ideal; gosto quando se aproxima do azul Del Rey da Coralit, minha cor preferida de quando eu pichava muros, mas isso é nostalgia, tem uma galera da minha geração que voltou a “pixar”; no dicionário Aurélio o verbo pichar consta com a grafia “ch”, mas na escrita e na fala dos adeptos, o “x” redefine o verbo como pixar, então como estava dizendo, esses artistas da tinta são os “G80” (Grafiteiros 80) ou então os sub-40, só coroa do meu top...
(continua)
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