(continuação)
...Volto para o “point da reú” e até agora ninguém da minha época, percebo uma movimentação da molecada em torno de uma lata de tinta spray, o Jet. A nova geração se escondia para pichar uma banca de jornal. Escoltei em volta, olhei para todos os lados, estava limpeza. Cheguei junto dos futuros pichadores e pedi para pichar:
- Posso lançar um nome com essa lata aí?
Eles confabularam e um decretou:
- O tio deve ser da antiga, deixa ele botar um nome!
Tio não, porra! Tio é sacanagem. Me senti quase o “Celacanto provoca maremotos”, o pioneiro que em mil novecentos e setenta e sete começou a pichar em Ipanema e logo ganhou a cidade. Hoje em dia escuto uns alienados por aí atribuindo essa pichação ao Profeta Gentileza, mas uma coisa não tem nada a ver com outra, o Celacanto é jornalista e está entre os mortais, já o Gentileza gera gentileza no céu. Mordido, coloquei a lata de tinta spray na cintura, para dentro da calça. Lembrei de uma letra do Camisa de Vênus que dizia assim:
“... Eu sinto no ar, que tudo pode acabar, que tal se transformar em fantasmas do underground...”
Então, eu um fantasma do underground subi na banca de jornal e escalando o poste, alcancei a marquise do prédio. O lugar não estava cheio, mas também não estava vazio, eu tinha que ser rápido. Fui desafiado por um garoto e não ia deixar barato. Subi mais pela grade de uma janela e no mais alto que meu braço alcançava, apertei o bico e “tssss” mandei um nome enorme: PEPE. Fiz minha assinatura cheia de cobras e setas no capricho. Um painel. Só quem estuda na escola da rua e se forma na faculdade da tinta consegue ler. Arte feita, desço e entrego a lata pros meninos que agora me olham com admiração. Eu queria mais era sair do local do flagrante antes que desse merda, mas não deixaram. Dezenas de braços esticados com cadernos nas mãos me pediam autógrafos. É, cada um tem o ídolo que merece, é a segmentação, os excluídos. Párias da sociedade se inspiram no sucesso próximo, mesmo que um sucesso localizado e segmentado.
Estava no meio da seção de autógrafos quando os “Sub-40” chegaram em motocicletas de poucas cilindradas. Percebi o porquê da não evolução, o porquê continuam ou voltaram para essa onda. Muitos são motoboys, moto-táxis e “sub’s”. Pra eles, pichar não dá dinheiro, mas alimenta a alma. Uma terapia ocupacional que colore o mundo. Só nessa vida de pichador que eles são reconhecidos. São cultuados. Atos de vandalismo contra o patrimônio público. Eles são venerados por ninfetas que querem barbarizar e por pirralhos sem limites, anárquicos e inseguros. O que move um adolescente de classe média a subir na cúpula de uma catedral para pichar, além do desafio? Quanta babaquice. Isso é vida? Não sei, mas é a vida possível para alguns. Eu quero que se foda, cada um com a sua tara. Já que eu estava ali, aceitei o convite e saí pra pichar o resto da noite.
“Como chegar nela eu nem sei. Ela é tão interessante e eu aqui pichando muro. Como chegar nela eu nem sei. Ela é tão indiferente
E eu igual a todo mundo”. (Charlie Brown Jr)
Dezenas de nomes em dois mil e oito lembram a alguns que continuo vivo e perdido.
(continua)
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