(continuação)
Tem mais ou menos um mês, eu estava na madrugada, no maior rango, a solução era um cachorro-quente completo, com tudo que eu tinha direito. Naquele horário, o "dogão" da comunidade da Marlene, na entrada da Lino Teixeira, era a única possibilidade. Pedi o cachorro que já não estava tão quente, me acomodei numa cadeira desmontável de ferro, e antes da primeira mordida:
- E aí, Pépe!
Pépe... Já tem muito tempo que ninguém me chama assim. Era o Torro, um maluco da antiga que estava nessa onda de revival.
- Lequa dorxapi?
Esse dialeto das ruas que eu acreditava estar extinto é o “Teteca”. Tem esse nome, reza a lenda, derivado do local de sua criação. Muito simples, consta em separar as palavras por silabas e agrupá-las de trás para frente. O Torro não parava de falar, daí ofereci o sanduba, mas ele declinou, não sei nem por que. Afirmar que tem alguma influência de consumo de drogas seria leviandade da minha parte.
- Dá um pulo lá no “Tem Tudo”. Vai geral na reunião. Os parceiros de Inhaúma e da Tijuca voltaram em peso. “Os irmãos” vão gostar de te ver.
- Relembrar é viver.
- Vai vendo. Mal de tudo, você assina uns cadernos, troca uma idéia. Você sabe que é considerado.
No sábado seguinte, cheguei cedo, fiquei de longe só observando, só chegava garoto novo. Uma criançada que grita por socorro, que quer ser vista, quer atenção. Essa busca fica mais difícil quando o mundo os apedreja. Para passar o tempo, entrei num boteco, escolhi pela freqüência, só tinha mulher, improvável, mas verdade. Pedi um trago de “Dudu” que é a mistura de vinho quinado Dubar com conhaque Dubar. Com muita má vontade, a atendente, de cabeça raspada e jaleco sujo, nem um pouco feminina, me serviu a bebida num copo descartável. O líquido vermelho deixou o copo mole e quente. Se eu demorasse a beber era capaz de derreter o fundo e desperdício de goró é pecado. Bebi de uma vez só. Pedi outro, mas dessa vez exigi um recipiente de vidro, nem que fosse pote de maionese. Peguei a bebida no balcão e tentei puxar assunto com uma menina pegável, shortinho e blusa decotada, que aparentemente estava sozinha numa das mesas:
- Perdida, neném?
- Estou esperando minha namorada que foi ao banheiro.
E antes que eu pudesse esboçar alguma reação ou entender o que ela queria dizer, uma voz grossa me interrompeu:
- Como é que é? Tá procurando alguém?
Me afasto desconsertado, que fora, já tinha ouvido falar nesse bar freqüentado por lésbicas, mas na empolgação de ver tanta mulher reunida não liguei o nome à pessoa.
No fundo do bar, um jukebox aceso berrava Joanna:
“... Vou te caçar na cama sem segredos e saciar a sede do desejo, deixar o teu cabelo em desalinho e me afogar de vez no teu carinho...” (Monentos - Altemar Dutra)
Eu tinha que me vingar da atendente mal-humorada e do simpático casal de namoradas. Pedi uma ficha e fui escolher uma música na máquina. Fiquei folheando as opções até que achei uma canção perfeita:
“... Subi no muro do quintal e vi uma transa que não é normal e ninguém vai acreditar, eu vi duas mulheres botando aranha pra brigar...” ( Raul Seixas)
Me viro e antes que eu alcançasse o balcão, uma garrafa explodiu na minha frente espatifada na pilastra e uma sucessão de copos e garrafas lançados na minha direção me expulsaram do bar. Me limpo dos cacos de vidro e fico rindo sozinho da situação. Ao menos uma coisa positiva disso tudo, na pressa não precisei pagar a conta...
(continua)
Um comentário:
pô cara dá um certo retorno no tempo da época boa da linha cruzada e todos estes movimentos pós rock in rio afloravam,copias piratas de fita casete, vida sem restrições, sem noção do perigo, sem bafômetro e sem pardal,onde com uma mereca na mão do segurança se entrava até no canecão, bom e eterno circo voador...
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